Elogio à “Bobagem”

Publicado em setembro 27, 2010 por

Tenho criticas históricas ao momento pelo qual a democracia vem passando em nosso país. Mas a proximidade recente que minha graduação possibilitou, me causou uma maior inquietação na análise das questões político-sociais de nossa nação. A transformação que desde a surpreendente eleição de Enéas Carneiro em 2002 à Deputado Federal, (levando consigo na ocasião à Câmara mais cinco deputados), a eleição de Clodovil Hernandes em 2006, tornando-se o terceiro deputado federal mais votado do País com 493.951, atesta que a democracia brasileira vem demonstrando uma sensível diferença na relação eleitor/processo eleitoral.

Há quem acredite que os 1.573.112 votos dados a Enéas Carneiro, ex-candidato a presidência, se configura como voto de protesto por parte dos eleitores. É o que acredita a cientista política Maria Vitória Benevides. Já eu analiso de forma diferente… A única base pra a sustentação deste argumento é, a meu ver, o preconceito. Como é possível analisar que determinada faixa da sociedade ou até mesmo ela por “inteira” (desprezando a leitura sociológica) resolveu deixar sua marca de protesto usando a urna como instrumento? Como é possível definir que determinado cidadão seja classificado como capaz ou não a exercer um cargo publico? Muitos dirão “ta na cara que ele (a) não tem capacidade, não sabe nem falar direito!” aos que defendem essa linha de raciocínio, faço questão de relembra que o jornal Francês Le Monde elegeu em 2009, como homem do ano um ex-metalúrgico, semi-analfabeto que é responsável pela retirada de treze milhões de brasileiros da linha de miséria, ah “mas Lula é Lula” dirão.
Caso aqueles preconceituosos enraizados, macrocéfalos, burroempacado ou no popular, cabeça dura que não se conformaram devo dizer, lei é lei! E ela diz o seguinte no seu artigo 5º da constituição brasileira:

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade…

O caso Tirica
Dando um salto de oito anos (desde o caso Éneas) na história político-democrático de nosso país, o mesmo fenômeno social se repete nestas eleições. Apresentando o humorista Francisco Everaldo Oliveira Silva (Tririca) como ícone emblemático desta sensível mudança no modo de olhar do povo tupiniquim. Algumas máximas do candidato são encaradas de forma depreciativa e ironica a exemplo:

“Vote em tiririca, pior não fica” “e o que faz um deputado federal, na realidade eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto” “estou aqui pra pedir seu voto por que eu quero ser deputado federal pra ajudar os mais necessitados… Inclusive minha família”. Se analisarmos mais detidamente, é possível notar que todos aqueles que consideram sua candidatura como uma afronta a soberania democrática de nosso país, estão na verdade escondendo um receio de que as coisas podem piorar sim. Isso porque de um lado estão dezenas de candidatos ávidos para verem suas candidaturas os levando “as vantagens fáceis do poder”, e do outro os cidadãos que acreditam que participar da política é simplesmente “escolher certo” em quem votar.
Se estes (os políticos) estão cientes desta realidade, por que não buscar formas de disseminação de políticas públicas que garantam e/ou aumente a capacidade do eleitor, de analisar criticamente a realidade social de seu bairro, município, etc? Comodidade politiqueira me parece ser a resposta mais adequada. Esta linha de raciocínio permite que sejamos sempre encarados como parte decisiva no processo eleitoral, apenas no ato da votação ou na atitude de determinado candidato, que visualiza sua ação como uma espécie de responsabilidade social, que lhe garantirá um lucro em imagem, idoneidade e aumento nas pesquisas. Alguém já se perguntou por que coincidentemente o governo (seja ele de esquerda, direita, centro esquerda ou ambidestro) sempre propagandeia diversos informes publicitários, manuais de conscientização do processo eleitoral próximo as campanhas? Nossa parte na soberania democrática é votar, não é interessante para governante que a maioria tenha acesso ao saber… A não ser é claro, que este seja um conhecimento técnico empregado na área tal e só.

Voltando…
O comediante é só um dos diversos exemplos espalhados por nosso país. A sua candidatura aponta pra uma realidade que a muito vem se espalhando por nossa nação. Eleger-se aqui, não tem muito haver com capacidade política, história de luta, defesa dos mais necessitados e todas as ladainhas que estamos acostumados a ouvir (pouquíssimos atendem essas prerrogativas). A relação é dada, quase que totalmente, pelo modo empático com que o candidato “x” se apresenta. Vota-se por que fulano é engraçadinho, bonito, gentil, bem afeiçoado, etc. Critérios superficiais que apontam para uma falta de preparo na análise crítica, e grande desconhecimento do modo como funciona o sistema político do próprio país. Tiririca é o expoente máximo de uma revolução silenciosa que vem ocorrendo há décadas. Deixando nítido que um povo nesses moldes, não considera seu voto como um protesto como afirmou a cientista social Maria Vitória Benevides. Afinal protestar contra algo precede antes de qualquer coisa conhecimento sobre o que se diverge, e acima de tudo uma capacidade de movimentar-se coletivamente, em busca de modificar as mazelas que lhe oprimem. E isto ocorre no Brasil de forma sistemática e perene? Certamente… Não!
Nossa democracia é indiretamente participativa, portanto você elege representantes que deverá tornar realidade anseios, atendendo as necessidades da maioria. Mas como isso é possível em um estado onde os governados não assumem o papel de vigilantes de seus governantes? Confiar em partidos e candidatos que tenham um histórico de vida pública, entregando-lhes a possibilidade desta realização, esperando em Cristo ou qualquer outra divindade que eles estejam sempre iluminados pelo espírito da coletividade, não me parece ser o caminho correto. Tentar de forma simbólica (portanto algo mais sutil e eficiente afinal há uma gama de subjetividade nestas ações) retirar um direito de um cidadão, facultado pela constituição, em nome da defesa de uma seriedade que não se vê no trato com a coisa pública também não o é. Resta-nos somente o conforto da lógica maniqueísta da qual nos extremos estão o povo e o candidato. E o estado, responsável direto pela construção e manutenção da ordem onde fica nessa historia? Dirão… O estado somos nós. E isto é efetivamente verdade em nosso país?

Comentários (1)

 

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